Dor no testículo: quando é emergência e quando pode ser câncer

Por Dr. Rodrigo Beserra, urologista em Teresina (CRM-PI 4345 | RQE 2826). Atualizado em 22 de outubro de 2026.

Dor no testículo é uma queixa que muitos homens preferem esperar passar, seja por vergonha, seja por achar que foi uma pancada sem importância. Na maioria das vezes a causa é benigna, mas existem duas situações que pedem atenção do urologista: a dor que começa de repente e forte, que pode ser uma torção do testículo e precisa de cirurgia em poucas horas, e o caroço ou aumento de volume no testículo, que pode ser câncer e muitas vezes nem dói. Neste artigo explico como diferenciar uma da outra e quando procurar atendimento.

Dor no testículo de repente: quando é emergência?

Dor forte no testículo que começa do nada, às vezes acordando a pessoa durante a noite, deve ser tratada como torção testicular até que se prove o contrário. Na torção, o testículo gira em torno do cordão que leva o sangue até ele, e a circulação fica interrompida. Sem tratamento rápido, o testículo pode ser perdido.

A torção é mais comum em adolescentes e adultos jovens, mas pode acontecer em qualquer idade. Os sinais que fazem pensar nela são:

  • dor intensa e súbita em um dos testículos, que pode subir para a virilha ou para a barriga;
  • náusea ou vômito junto com a dor;
  • testículo inchado, mais alto que o outro ou em posição diferente da habitual;
  • ausência de febre e de ardência para urinar no começo do quadro.

Nesses casos, a orientação é ir direto ao pronto-socorro, sem esperar para ver se melhora e sem tomar analgésico em casa para disfarçar a dor. O tempo conta muito: quando a cirurgia é feita nas primeiras 6 horas, a chance de salvar o testículo passa de 90%, e ela cai bastante depois de 12 a 24 horas, como mostram as diretrizes da Associação Europeia de Urologia (EAU). O ultrassom com Doppler ajuda a confirmar a suspeita, mas quando o quadro é muito típico o urologista pode indicar a cirurgia sem esperar o exame. Na cirurgia, o testículo é desenrolado e fixado, e o outro lado também é fixado para evitar que o mesmo aconteça com ele.

No vídeo abaixo contamos o caso de um paciente que procurou o pronto-socorro logo depois do início da dor e conseguiu preservar o testículo.

Quais são as outras causas de dor no testículo?

Fora a torção, a dor testicular tem várias causas, e boa parte delas é tratada com remédio e repouso. As mais comuns no consultório são:

  • Epididimite e orquiepididimite: inflamação ou infecção do epidídimo, a estrutura que fica atrás do testículo. A dor costuma piorar ao longo de um ou dois dias, e pode vir com febre, ardência para urinar ou secreção na uretra. Em homens jovens com vida sexual ativa, a causa mais frequente é uma infecção sexualmente transmissível, e em homens mais velhos, bactérias da urina.
  • Torção do apêndice testicular: uma pequena estrutura presa ao testículo, sem função, que também pode torcer. É comum em meninos, dói menos que a torção do testículo e quase sempre melhora sem cirurgia, mas só o exame diferencia uma da outra.
  • Pancada: depois de um trauma, dor forte que não passa, inchaço importante ou roxo grande na bolsa precisam de ultrassom para afastar lesão do testículo.
  • Pedra no rim ou no ureter: a cólica de um cálculo descendo pelo ureter pode ser sentida no testículo, mesmo sem nenhum problema nele. Saiba mais no artigo sobre pedra nos rins.
  • Varicocele e hidrocele: a varicocele dá uma sensação de peso que piora no fim do dia ou depois de muito tempo em pé, e a hidrocele causa aumento de volume da bolsa, em geral com pouco desconforto.
  • Hérnia inguinal: pode descer para a bolsa e causar dor e volume na virilha.

Também existe a dor testicular crônica, que dura mais de três meses e pode ter relação com cirurgias anteriores, problemas na coluna ou tensão da musculatura pélvica. Ela exige uma investigação mais longa, e o tratamento costuma combinar remédios, fisioterapia e, em casos selecionados, cirurgia.

Câncer de testículo dói?

Na maioria dos homens, não. O câncer de testículo costuma aparecer como um caroço endurecido, um aumento de volume ou uma mudança na consistência de um dos testículos, sem dor. Alguns pacientes sentem peso na bolsa ou um incômodo leve, e uma parte menor tem dor, às vezes porque o tumor sangra por dentro. Por isso, a ausência de dor não deve tranquilizar quem notou alguma alteração.

Esse é o câncer sólido mais comum em homens entre 15 e 40 anos, uma faixa de idade que pouco vai ao médico. O risco é maior em quem teve testículo fora da bolsa na infância (criptorquidia), mesmo que tenha sido operado, em quem já teve câncer no outro testículo e em quem tem pai ou irmão com a doença.

Como é feito o diagnóstico do câncer de testículo?

O primeiro exame é o físico, feito pelo urologista no consultório. Diante de qualquer alteração, o próximo passo é o ultrassom da bolsa escrotal, que mostra se o nódulo está dentro do testículo e quais são as suas características. Também pedimos exames de sangue chamados marcadores tumorais (alfafetoproteína, beta-HCG e LDH), que ajudam no diagnóstico e no acompanhamento depois do tratamento.

Quando o ultrassom mostra um tumor, o tratamento inicial é a retirada do testículo afetado por um corte na virilha, que confirma o diagnóstico e já trata a doença em boa parte dos casos. Não se faz biópsia pela pele da bolsa, porque ela pode espalhar o tumor. Antes da cirurgia, conversamos com o paciente sobre o congelamento de sêmen, já que o tratamento pode afetar a fertilidade, e sobre a possibilidade de colocar uma prótese de testículo. Depois da cirurgia, a necessidade de quimioterapia, radioterapia ou apenas acompanhamento é definida pelo tipo do tumor e pelos exames de estadiamento, como recomendam as diretrizes da EAU e da Associação Americana de Urologia (AUA).

A boa notícia é que o câncer de testículo está entre os tumores com maior chance de cura, acima de 95% no conjunto dos casos e ainda maior quando o diagnóstico é feito cedo, com a doença restrita ao testículo.

O autoexame do testículo é recomendado?

Aqui as recomendações variam. Não há estudo mostrando que o autoexame de rotina em todos os homens reduza a mortalidade, e por isso algumas entidades internacionais não o recomendam como rastreamento para a população geral. A EAU orienta o autoexame regular para quem tem fatores de risco, como criptorquidia ou parente próximo com a doença.

Na prática, conhecer o próprio corpo ajuda. O momento mais fácil é depois do banho quente, com a pele da bolsa relaxada: segure cada testículo entre os dedos e note o tamanho, o formato e a consistência. É normal um testículo ser um pouco maior que o outro, e o epidídimo, atrás do testículo, pode ser confundido com um caroço. Se perceber algo novo, a conduta é marcar uma consulta, sem pânico e sem adiar.

Quando procurar um urologista?

Vá ao pronto-socorro na mesma hora se a dor no testículo for forte e súbita, principalmente se vier com náusea, vômito ou testículo mais alto. Marque consulta com o urologista se notar caroço, endurecimento ou aumento de volume, mesmo sem dor, se a dor durar mais de alguns dias, se vier com febre ou ardência para urinar, ou se voltar com frequência. Em meninos e adolescentes, que muitas vezes escondem a dor por vergonha, a regra é a mesma, e os pais podem ajudar explicando que dor no testículo é motivo para avisar logo. No artigo quando devo procurar um urologista estão outros sinais que pedem avaliação, e no texto sobre saúde íntima masculina há orientações de cuidado no dia a dia.

Perguntas frequentes sobre dor no testículo

Dor no testículo do lado esquerdo é mais grave?

O lado da dor, sozinho, não diz se é grave. A varicocele é mais comum à esquerda e costuma dar sensação de peso, enquanto a torção e o câncer acontecem dos dois lados. O que pesa mais é como a dor começou, a intensidade e os sintomas que vêm junto.

A dor da torção pode passar sozinha?

Pode, quando o testículo se desenrola espontaneamente. Mesmo assim, quem teve uma crise de dor súbita que melhorou deve ser avaliado pelo urologista, porque o episódio pode se repetir, e a fixação do testículo em cirurgia programada evita uma nova torção.

Quem tira um testículo por câncer pode ter filhos?

Na maioria dos casos, sim. O testículo que fica costuma manter a produção de espermatozoides e de testosterona. Como a quimioterapia e a radioterapia podem reduzir a fertilidade, o congelamento de sêmen antes do tratamento é oferecido a todos os pacientes que desejam ter filhos.

Principais pontos

  1. Dor no testículo forte e súbita pode ser torção e pede pronto-socorro na hora: nas primeiras 6 horas, a chance de salvar o testículo passa de 90%.
  2. Epididimite, pancada, pedra no ureter, varicocele e hérnia são outras causas comuns de dor testicular.
  3. O câncer de testículo costuma aparecer como caroço ou aumento de volume sem dor, e é mais comum entre 15 e 40 anos.
  4. Ultrassom e marcadores tumorais fazem o diagnóstico, e a cura passa de 95% dos casos.
  5. Qualquer alteração nova no testículo, com ou sem dor, merece avaliação do urologista.

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Conteúdo escrito pelos urologistas da Devant Urologia, em Teresina: Dra. Marília Buenos Aires (CRM-PI 5831 | RQE 2754) e Dr. Rodrigo Beserra Sousa (CRM-PI 4345 | RQE 2826), ambos titulares da Sociedade Brasileira de Urologia. As informações têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.

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